Premiado em Cannes, ‘Bacurau’ estreia no circuito comercial

Longa de Kleber Mendonça Filho fala de choque cultural e injustiça no interior do Nordeste

Num rastro de sangue que brota de inúmeros lados no longa Bacurau, se percebe uma situação calamitosa e de injustiças, dia a dia, esfregada na cara de brasileiros menos favorecidos — ao menos, em termos monetários. No filme dos diretores e roteiristas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles — prestigiados pelo Festival de Cannes (de onde saíram com o Grande Prêmio do Júri) — há choque cultural ainda, acentuado numa escala global, com um Nordeste sob vigilância de forasteiros — e na trama, algo beligerante, é insinuado um renque de questões: quem seria o inimigo? Quem deteria de fato o poder? E quem serviria a quem? Bacurau seria um lugar distante, distante, no interior do Nordeste, talhado para inscrever um futuro histórico e incendiário de Brasil e brasileiros.

Preterido na indicação brasileira do Oscar – o escolhido foi A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz – Bacurau, ecoa na tela a resistência do cangaço e os saberes que fortalecem um senso de comunidade. “A simbologia vai surgindo, naturalmente, enquanto se desenvolve o roteiro, e, havendo talento, tudo vai se firmando, durante a escrita”, comentou o diretor pernambucano Kleber Mendonça, no 47º Festival de Gramado, no qual, pela primeira vez, o público brasileiro teve acesso ao longa. “Em Sidney (Austrália), o filme passou com percepção muito mais engraçada do que a gente (a equipe) imaginava. No Brasil, parece que o público entende cada reação de personagem. Aqui, Bacurau é mais corretamente decodificado”, disse Mendonça, autor de fitas como O som ao redor Aquarius. Com apelo sério e inesperado uso de elementos tecnológicos na trama, Bacurau cutuca temas como exploração sexual e discos voadores, além de uma natureza viva e pulsante.

Presente no elenco de Aquarius, a atriz Sônia Braga retoma a parceria com Mendonça, agora ainda mais sólida diante da codireção de Dornelles. “Não sou o tipo de atriz que gosta de ficar isolada; gosto do coletivo. Cinema requer participação de todos. Todos nós (da equipe) somos o filme Bacurau. A Domingas era uma personagem completamente diferente de Clara (de Aquarius). A personagem brota daquela terra, com força. Domingas é muito mais simples de fazer o personagem, por ele estar dentro de uma totalidade”, explica Sônia Braga.

Dotado de alegoria e de um elenco coral, que prima pelo coletivo, Bacurau desperta um desejo expresso na estrela internacional de filmes como O beijo da mulher aranhae Extraordinário. “Acho importante (o brasileiro) reagrupar, reunir, conversar neste momento grave. Talvez convivêssemos bem, se abrindo e nos entendendo melhor. Precisamos achar meios para viver num futuro que não seja o futuro (visto em) Bacurau”, analisa a atriz. Mobilizados, os personagens de Bacurau fazem a diferença. Recorrendo à citação de guetos (especialmente os da Segunda Guerra), Kleber Mendonça ressalta que “a violência mexe com os instintos”; ao que Juliano Dornelles completa: “Enquanto escrevíamos, pensávamos na forma de resistência no Vietnã: não se trata de vingança, nem de revanchismo. A palavra certa seria resistência”.

Tem para todos

O congraçamento étnico, etário e regional — com sotaques plurais em cena — é motivo de orgulho para o ator Wilson Rabelo, à frente do personagem professor Plínio, filho da centenária dona Carmelita, quase uma padroeira para os moradores do município de Bacurau. “O (Luís da) Câmara Cascudo sempre negou a existência de quilombos no Nordeste, mas conhecemos remanescentes, nas filmagens”, comenta o ator. Uma fruição cultural desemboca em dois núcleos da trama de Bacurau: escola e museu.

“A escola e o museu são fortalezas dentro da comunidade. Em duas ocasiões, os moradores oferecem a estranhos a possibilidade de visitar o museu; e acho isso muito cristalizado no brasileiro: negam a visita, por falta de tempo. Há ironia, no filme, na utilidade que a tal visita ocasionaria. Não se trata de uma cidade que use armas. Acho, aliás, que a maior parte das armas no mundo deveria ser destruída. Mas poderiam ficar guardadas, em museu. Isso, como arquivo, para se saber como funcionavam e o que faziam”, comentou Kleber Mendonça.

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